Elísio Summavielle | Director Geral do Património Cultural
1. Concorda com o princípio segundo o qual os directores dos museus devem ser pessoas com um conhecimento cientifico muito aprofundado sobre a área cientifica em que se integram as colecções do museu ( ex. arqueologia, arte, etnografia)?
É-me difícil responder, porque, por um lado, é desejável, sim, que um director domine bem a matéria que deu e dá vida ao museu que dirige. Mas, por outro lado, um “cientista profundo”, pode não ser, e muitas vezes não é, forçosamente, um bom dirigente, gestor, um bom chefe de equipa. Considero que o essencial do papel do(s) “cientista(s)” deverá estar, antes do mais, com a equipa técnica, de conservadores, colaboradores e investigadores que garantem a vida e a estabilidade das colecções.
2. Considera que os directores de museus sem formação especifica na s área financeira, planeamento, gestão, recursos humanos, comunicação e marketing são de facto capazes de potenciar os recursos à sua disposição ( instalações, colecções, meios humanos, técnicos e financeiros, etc.)?
Claro que é importante, também, dominar a modernidade dessas formações que indica. E sobretudo hoje, mais do que nunca, tudo o que se relacione com a Gestão de recursos, a todos os níveis, é essencial à dinâmica dos museus que, enquanto organizações não estão, nem podem estar, fora do que se passa na realidade social, económica, e cultural que os envolve.
3. No quadro da formação académica actualmente existente em Portugal, quais as áreas do conhecimento que consideraria imprescindíveis numa formação com o objectivo de preparar futuros directores de Museus (ex. gestão, economia, gestão cultural, artes, sociologia, recursos humanos, conservação e restauro, administração publica, comunicação, cultura, direito, etc)?
Um “director” de museu, pelo menos a nível Estatal, é alguém que, por perfil e mérito curricular, cumpre determinada missão de “chefia”, por um período limitado no tempo (embora renovável), à frente de determinado equipamento público. Poderá não ser, e não é, forçosamente, uma carreira. Mas há determinado tipo de qualidades na sua formação, independentemente de qualidades inatas, humanas, que são essenciais a um bom desempenho dessa missão. Por isso, todo esse conjunto disciplinar que refere na sua questão, de áreas de Gestão, e também de conhecimentos técnicos específicos na área das colecções em apreço, se torna necessário. Hoje, ao contrário do que sucedia há década e meia, há múltiplas formações, diversas licenciaturas, em todas essas áreas de “gestão cultural”. Há uma nova geração com a criatividade e recursos de formação que não existiam num passado recente. Ora, a questão deverá colocar-se agora, pela compatibilização desses recursos, desses conhecimentos, hoje absolutamente necessários, com aquilo que são princípios e valores essenciais, consagrados em Cartas e Recomendações internacionais, em matéria de Património Cultural. Onde também conta muito a experiência, e o “saber fazer” adquiridos. Por isso haverá que procurar sempre o equilíbrio justo em determinados perfil. Não soluções mágicas…
4. Excluindo as dificuldades decorrentes de enquadramento orgânico e administrativo, não imputáveis integralmente aos directores dos museus, vê algum aspecto de maior fragilidade na gestão dos museus, pelo actual perfil dos seus dirigentes?
Vivemos um período de mudança, a todos os níveis da nossa sociedade, e às vezes nem nos apercebemos disso à primeira vista, se nos mantivermos fechados no nosso “pequeno imenso” mundo. Há de facto uma mudança geracional em todos os sectores, mas isso não arruma, nem pode arrumar numa “prateleira”, a boa experiência e saber adquiridos. O que todos deveremos agora, é ser parte da solução, com a necessária abertura a essa mudança (que não poderemos nunca travar), e tentar não vestir a pele do “problema”, por facilitismos estéreis de vitimização. Sabemos bem das dificuldades que o país atravessa financeiramente, e que todos sofremos no dia a dia das nossas actividades, em que tantas vezes esgotamos a nossa energia a contornar essas dificuldades. Não é isso que está em causa, os princípios e a missão essencial dos museus mantém-se. O que está em causa hoje, na contemporaneidade, é manter viva a missão dos museus, pelo tempo que vivemos, e pelas novas qualidades do conhecimento e da comunicação entre os humanos.
5. Gostaria de referi algum outro aspecto sobre este assunto?
(Não respondeu)

