João Neto | Presidente da APOM
1. Concorda com o princípio segundo o qual os directores dos museus devem ser pessoas com um conhecimento cientifico muito aprofundado sobre a área cientifica em que se integram as colecções do museu ( ex. arqueologia, arte, etnografia)?
Claramente. Dissociar o conhecimento científico do perfil do director de um museu seria um suicídio. De facto, ele tem eu existir, mas não é o suficiente. Defendo que, nos cursos de Museologia, deve haver uma vertente de Gestão do Património, uma linha em comum que, posteriormente, permita o aperfeiçoamento e a aquisição de competências na área da gestão.
Hoje em dia, não podemos descurar essa componente, face às exigências do sector. Por outro lado, os profissionais do sector não podem correr o risco de ver os Museus entregues a gestores, no sentido mais estreito, sem qualquer noção dos princípios básicos do que é um Museu. Esse risco só pode ser minimizado se os profissionais adquirem algumas competências nessas áreas.
2. Considera que os directores de museus sem formação especifica na s área financeira, planeamento, gestão, recursos humanos, comunicação e marketing são de facto capazes de potenciar os recursos à sua disposição ( instalações, colecções, meios humanos, técnicos e financeiros, etc.)?
Pode ser arriscado. Não considero que devam ser especialistas nessas matérias, mas possuidores de alguns conhecimentos nessas áreas que permitam uma gestão eficaz, ao nível da gestão financeira, dos recurso humanos da organização, etc. Um director dotado apenas de competências de carácter científico pode colocar em causa os projectos que lidera. Nesse contexto, a APOM defende a criação de formação específica.
3. No quadro da formação académica actualmente existente em Portugal, quais as áreas do conhecimento que consideraria imprescindíveis numa formação com o objectivo de preparar futuros directores de Museus (ex. gestão, economia, gestão cultural, artes, sociologia, recursos humanos, conservação e restauro, administração publica, comunicação, cultura, direito, etc)?
Considero que há várias áreas importantes: Marketing; Recursos Humanos, Análise de Risco, Gestão, Etc.
Essa questão deve ser colocada do ponto de vista do profissional, até para consolidação da profissão do museólogo e, paralelamente, o reconhecimento e consciencialização por parte das entidades ligadas à museologia.
Para além disso, considero imprescindível, no âmbito da formação, a frequência de um estágio num Museu ou Palácio Nacional, bem como a presença dos profissionais dos Museus nos cursos de Museologia. Parece-me inconcebível que os mesmos sejam, por vezes, conduzidos por pessoas que nunca tiveram qualquer experiência efectiva num Museu.
4. Excluindo as dificuldades decorrentes de enquadramento orgânico e administrativo, não imputáveis integralmente aos directores dos museus, vê algum aspecto de maior fragilidade na gestão dos museus, pelo actual perfil dos seus dirigentes?
A inexperiência de alguns directores, associada a alguma insensibilidade, condicionam alguns projectos.
5. Gostaria de referi algum outro aspecto sobre este assunto?
Considero que os directores de Museus devem ser profissionais de carreira, isto, é, pessoas com experiência efectiva nos museus. Claro que é preciso gente nova, mas isso não invalida que um profissional com grandes responsabilidades num Museu, nomeadamente o director, possua competências que só a experiência lhe pode conferir, “trabalho feito” e que garantem uma melhor prestação e o próprio sucesso do projecto e da instituição. Um director pode ser academicamente excepcional, e apresentar debilidades a outros níveis igualmente determinantes para o projecto que lidera. Todas as áreas de actividade pressupõem uma evolução na carreira, a Museologia não deverá ser uma excepção.
Os museus têm uma grande responsabilidade sobre Terceiros. Nós, os profissionais da Museologia, temos o der de o preservar e comunicar, bem como promover a reflexão dos públicos sobre este bem comum. Nesse sentido, a escolha de um profissional para o cargo de director de um Museu não pode ser feita de ânimo leve, garantindo que as pessoas e as equipas que ocupam este lugares possuem as competências que lhes permitam ocupar esse lugar. Para dignificar os profissionais, considero essencial a existência de um conjunto de normas que qualifiquem, de facto, as pessoas. Para que possa ser exigido um maior retorno, qualquer que ele seja, é necessário haver uma maior ligação a estas “pequenas” e “grandes” responsabilidades. E essa exigência passa também por nós, profissionais do sector.

